Monday, November 21, 2005

OUTRO PONTO FINAL



Olhos em chamas
Chamando você
Ninguém responde
Onde?
Vai saber...

Já não quero mais
O que não queres também
Nem vem que não tem
Estou além
Estou bem?

Nem sei
Nem sou
Nem seja mais
Quero não mais lhe querer
Como se eu pudesse poder

Não posso
Me cesso
Outro ponto final
Feito vírgula, reticência
Ou interrogação, que tal?

Thursday, October 20, 2005

SAIA DAQUI



Me deixe em paz que eu nem mais quero falar.
Não me importune com sua zoeira tola.
Não tenho cofre hoje, estou aberto e posso me ferir. Sei disso. Saia daqui.
Sou ferida aberta. E não me apetece falar agora dessas coisas tolas.
Saia daqui, já disse. Que coisa séria... me respeite um pouco. Não passe por cima de mim como você faz com o cão morto no asfalto. Se hoje estou morto amanhã te assombro. Saia daqui.
Nunca sofreu? Nunca sentiu dor real? Saia daqui. Não quero não quero não quero ninguém aqui.
Só me abrace...

Tuesday, October 18, 2005

SONHOS DE PAPEL



Sei que meus sonhos não saem do papel, feitos que são da matéria-prima dos sonhos, que é a ilusão. E quando abraço a noite pura e simples, e interrompo as palavras com uivos, daí tudo fica nublado, como se fosse só sofrer e mais nada.
Abraço a noite outra vez. Já não tenho motivos e eles não me faltam. Contradição é coisa minha mesmo. E outra noite se vai. Novos sonhos que deixei pra trás. Onde estou? Quem somos nós?
Nada como ficar depois de tantas idas. Nada como sonhar na hora da despedida. Estou sozinho e não tenho ninguém pra me dizer “cale-se”. E não me calo. Agüento a barra, mas não sem escrever. No papel pode. Nele tudo pode. Eu fiz o que pude. No papel. Rompi mil barreiras que eram só minhas e fui adiante. Quebrei a cara. São estas coisas que me deixam mais e mais cansado e injuriado. O tom da noite, a cor da chuva, tudo se faz presente, e já é tarde. Já escrevi demais. Adeus, por ora...

Monday, September 26, 2005

NO CANTO DA PÁGINA



Mesmo abrindo páginas em branco bem semelhantes ao clássico papel de carne e osso (?), meu editor de textos tem um defeito grave: suas tais páginas em branco não tem cantinhos. Você sabe, aqueles cantinhos onde a gente pode desenhar besteirinhas. E isso faz falta.
Claro que o editor de textos delimita a página e, assim, os cantos dela. Mas mesmo com recursos de desenho (toscos), não há a mesma liberdade, fluidez e sei lá mais o quê que tornam tão legal deslizar o lápis ou a caneta e gerar cubos, círculos, triângulos, arabescos, palavrinhas e moldurinhas.
Eu, na verdade, tenho uma queda por olhos. Gosto de desenhá-los assim, caolhoticamente, de forma individual, sem par, sem rosto, sem boca ou nariz. No máximo uma sobrancelhazinha para garantir equilíbrio e expressão.
E é por essas e outras que ainda não consegui (e acho que nem irei um dia) abandonar por completo o tal papel de carne e osso.

Friday, September 23, 2005

DEIXADO



- Acabou, disse ela num tom ríspido pouco característico.
- Cuma?, questionou ele numa regressão infantilóide-didi-mocó.
Ela não respondeu, como se fosse obrigação dele entender de primeira, o que certamente aconteceu, já que o "cuma?" era menos um atestado de incompreensão e mais uma tentativa de compreender o que lhe soava incompreensível.
Enquanto ele fazia a retrospectiva das últimas cagadas, ela fazia as malas.
Monopalavreando, como antes, ela disse apenas um "adeus". E a porta fechou-se em estrondo.
Mal sabia ele que a razão de tudo não estava no que ele tinha feito, mas em tudo que tinha deixado de fazer.

Thursday, September 22, 2005

MIRAGEM



O asfalto ardia sob seus pés. Ao longe, aquelas miragens feitas de calor, vapor, refração ou seja lá o que for. Mais um passo antes de ceder ao cansaço.
Nenhuma alma viva. Nem morta. Nem morta-viva. Nem moribunda. Ou quase. Moribundo era ele. Ou quase. Ainda tinha forças para mais um passo. E então abraçaria o asfalto. Esperando um carro qualquer para esmagá-lo como a um bicho do mato. Ou do deserto. Ou o que for. E é. Quente. Muito.
Foi quando ela apareceu. Qual miragem. Roupas esvoaçantes e adereços interessantes que só miragem poderia vestir. Mas miragem não fala. Ou fala?
- Vem.
Ir como? Só se flutuando. E ele flutuou, como se carregado numa maca invisível. Só um delírio, talvez. Ou devaneio pré-desfalecimento.
Soslaio. Não sabia realmente se era assim que enxergava o interior da casinha, mas gostava da palavra. Não flutuava mais. Havia uma cama abaixo de si. Havia água molhando sua fronte. Um pano úmido. Fechou os olhos novamente.
Assepsia. Hospital. Milagre era a palavra mais usada. Como chegou até ali ninguém sabia dizer. Se andando ou flutuando, ninguém chegou a ver.
A verdade só ele sabia. Não foi milagre. Foi miragem.

Wednesday, September 21, 2005

DEZ



Dez horas me diz o relógio. Dez horas e estou cheio de tédio. Dez horas e quero saltar deste prédio. Dez horas e não sei mais qual o caminho. Dez horas e me sinto sozinho. Dez horas e quero um bom motivo pra continuar. Dez horas e um. Melhor assim. Agora um novo tempo começa. Até chegarmos em dez e dois. Então tudo mais ficará para depois.